Estrada de Damasco

O percurso e o destino

September 12, 2006

Os «mas»

Têm razão aqueles que dizem que o mais ignóbil nesta discussão - como em quaisquer discussões acerca de vítimas de actos cruéis - é que há sempre um «mas».
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Morreram 3000 pessoas no WTC? «Sim, mas...». E logo se desfiam firmes legitimações para odiar os Estados Unidos - essa entidade... - e as pessoas que lá vivem - um pormenor insignificante. Mas, o quê?
Este raciocínio parte do abjecto pressuposto de tomar as pessoas como um dado estatístico, despindo-as da sua humanidade e individualidade. Nomeadamente, aqueles 3000 mortos não são 3000 tragédias individuais; e pouco importa que aqueles 3000 inocentes nunca tenham contribuído com um fio de cabelo para qualquer problema noutra parte do mundo. Aqueles 3000 são apenas uma lista de baixas - de alguma forma culpados, portanto - de uma engrenagem maquiavélica, que, como se sabe, só pretende o domínio global à conta de vexames impostos aos outros povos. E esse raciocínio é o do móbil do crime cometido pelos terroristas. É por isso que este «mas» de simpatia e compreensão não passa de uma forma de cumplicidade. Atravessar este «mas» em qualquer discussão acerca deste tema é, também e de alguma maneira, assumir os comandos dos aviões que se esmagaram contra a Torre.
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Igualmente vergonhosa é a campanha de ruído em torno da própria autoria dos ataques. A nova moda insane - que, como não podia deixar de ser, mereceu em Portugal tratamento e carinho VIP nos canais televisivos públicos - passa por lançar a dúvida sobre se os ataques não teriam sido afinal cometidos pela própria Administração americana.
Sem dúvida que há algo de psicótico e racista nisto: esta tese é uma curiosa manifestação (diferente, mas igual) do sentimento histórico de inexpugnabilidade dos EUA. Subjaz a ela uma recusa absoluta de que os EUA possam ser atacados, de aceitar que alguém possa vir ao coração dos EUA impôr tanta dor e sofrimento - sobretudo, tratando-se de uns muçulmanos treinados numas grutas. «As Torres foram destruídas? Naturalmente; mas pelos próprios EUA, que são os únicos capazes de o fazer».
Fait divers à parte, devemos recordar que as teorias da conspiração, por mais impressionantes que possam ser (quanto mais arrojada, mais convincente é a teoria da conspiração) se constroem com recurso a métodos de fazer inveja ao próprio Goebbels, com base em meras conjecturas e insinuações e sem qualquer espécie de demonstração empírica. E as teorias da conspiração têm por único objectivo minar a consciência evidente de que o mundo ocidental está sob ameaça - e sob uma ameça brutal e gratuita.
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E é este o resultado do «mas»: o de viver com o sentimento de que merecemos tudo aquilo por que estamos a passar, se porventura não duvidarmos que aquilo por que estamos a passar é efectivamente aquilo por que estamos a passar.

2 Comments:

Blogger Paulo Cunha Porto said...

Meu Caro Jagoz:
Brilhante "post", desmascarando aqueles que abdicam de partir da análise dos factos históricos para edificar uma doutrina, mas, ao invés, já a têm na cabeça e corroborada pelas suas fantasias da Historia, com o irrefutável argumento de que ninguém, senão eles, sabe o que verdadeiramente se passou.
Abraço e parabéns.

7:06 PM  
Blogger Jansenista said...

Idem, idem.

10:39 PM  

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